quarta-feira, 23 de maio de 2012

"A CRÔNICA CRÍTICA DE UM RUBRO-ANIL" COM DÊRAUÊ

[LEGENDA] A partir da esquerda, em pé: Ubirajara é o primeiro,
e o terceiro, Paulo Lumumba; agachado, o primeiro é Gibira.

Após ver que o Botafogo estreou no Brasileirão com uma bela virada por 4 a 2 sobre o tricolor paulista, cabe recordar: o “glorioso” sempre foi um time de chegada. Ainda que, com certa frequência, morra na praia. O ano de 1968, porém, e para além das surpresas destinadas a Praga em sua primavera e ao maio em Paris, reservava também ao clube da General Severiano uma agradável alegria.
Quem brilhou no ato, no entanto, foi o Bonsucesso.

Precisava a equipe da estrela solitária vencer e ainda torcer para o rubro-negro da beira da lagoa não ganhar a partida seguinte, de modo à decisão da Taça Guanabara se dar num jogo extra; caso contrário, o título ia para a Gávea pela primeira vez desde a sua criação, em 1965. Mas naquele domingo após o dia da independência, as equipes empataram miseravelmente sem inaugurar o placar diante de cento e vinte e três mil espectadores. O resultado deixava tudo como estava na tabela, mas isso se  o Urubu não tivesse uma rodada a menos, a se dar contra o rubro-anil da Leopoldina.

Conta-se que a mulambada, diante da situação, comemorou no próprio domingo a conquista do título, com direito a volta olímpica no templo do futebol. Zagalo, resignado e ainda sem o “l” dobrado, levou o alvinegro para uma excursão no Centro-Oeste do país, a começar com um amistoso contra o Goiânia no mesmo dia do embate entre suburbanos e lagoeiros.

O Leão vinha de duas derrotas (Botafogo 1 a 0; Bangu 2 a 0; Fluminense 4 a 0), uma vitória sobre o América (1 a 0) e um empate com o Vasco (1 a 1). Segurava a lanterna da competição e enfrentaria um dos primeiros da tabela. Naquela noite, Ubirajara; Luís Carlos, Jurandir, Paulo Lumumba e Albérico; Fifi (Moisés), Didinho e Gibira; Gilbert (Jair Pereira), Gonçalves e Morais provaram que, de vez em quando, as páginas da história se abrem. Não só aos reis e notáveis, mas também àqueles a quem não resta mais nada a perder além da dignidade. Às vezes, o pouco que se tem é muito ou, quando não, o suficiente.

Pois bastou a dignidade daqueles que compunham as dezenas de dezenas de “torcidas” para sair de casa naquela noite, ainda que não houvesse nenhuma perspectiva. Pegaram o trem na Praça das Nações rumo ao maior do mundo, junto com outras 47.000 pessoas numa quarta feira, onze de setembro, para não ver nenhuma vítima registrada, à exceção da arrogância trajando vermelho e preto, noite alta, nas imediações da Estação Derby Clube (atual Maracanã).

Certamente a vitória do Bonsuça uns seis meses antes, em pleno bairro das Laranjeiras, não foi lembrada como alento por quem sofreu na alma os noventa minutos daquela decisão “improvisada”. Alguns creditaram o resultado à falta de sorte da linha de frente rubro-negra. Outros diriam que o esquema recuado do já tarimbado treinador Velha, devolvendo forte em contra-ataque, foi absolutamente eficiente tanto defendendo quanto convertendo em gol as poucas chances surgidas.

Fato é: o clima do Maracanã, depois da vitória, estampava-se em gestos e palavras do sr. Orlando como um misto de tensão e alegria enquanto lembrava que, naquele tempo, as arquibancadas não possuíam divisórias. Torcedor que, hoje, na Teixeira de Castro, gosta de ver os jogos lá atrás das traves ao norte (perto do mercado Guanabara), reparou o seu amigo João alheio à multidão também presente, a bradar o êxito suburbano através do megafone numa das mãos, enquanto a outra agitava o pavilhão rubro-anil. 

Era difícil imaginar aquele sexagenário alto, ainda corpulento e de voz calma, tirando os “brinquedos” da mão daquele fanático pelo Cesso, não fosse pela atitude de prudência ao evitar ver o amigo – bem como a si mesmo – se metendo numa grande encrenca. Como também prudente foi esperar apagarem-se as luzes do Estádio e esvaziarem-se as ruas do entorno para, com segurança, alcançar a estação e tomar o trem de volta à Leopoldina.
Chegando na Cardoso de Morais com a Teixeira de Castro, o Sr. Orlando certamente ouviu a torcida gritando em coro, não havia choro na choperia Planalto. Vivendo o hino que se cantava, foi como se as testemunhas da arte Impossível transformada, naquele dia, em esporte Futebol, reconhecessem Gonçalves e Morais como os jatos lançados contra torres de um castelo aparentemente inabalável, que ultrapassaram a meta do time da Gávea e desmancharam deixando um rastro de fumaça vermelha e azul a festa iniciada pelos urubus, por antecipação, já naquele empate com o Botafogo. Pois bem feito: comeram cru, passaram mal ou, como bem disse o Zagallo: ri melhor quem ri por último.
***
O campeonato acabou e o Botafogo venceu o Flamengo por quatro a um, diante de cem mil pessoas, no fim de semana seguinte. Às vezes é preciso concordar com o velho Lobo. Mas só às vezes, sempre bom lembrar: um copo vazio ainda está cheio de ar.


FONTES:

http://abelardomaues.wordpress.com/2010/07/23/jogos-inesqueciveis-botafogo-4x1-flamengo/
http://brfut.blogspot.com.br/2009/08/campeonato-carioca-1968.html
http://brfut.blogspot.com.br/2009/12/taca-guanabara-1968.html
http://jorgecarrano.blogspot.com.br/2012/05/vasco-x-santos.html
http://aqipossa.blogspot.com.br/2012/01/o-super-bonsucesso-futebol-clube.html
http://jogosdobonsucesso.blogspot.com.br/2010/09/taca-guanabara-1968.html
http://mundobotafogo.blogspot.com.br/2011/04/taca-guanabara-de-1968.html
http://www.futebolecialtda.com.br/2011/08/voce-se-lembra-do-bonsucesso-futebol.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ta%C3%A7a_Guanabara
REZENDE, José e QUADROS, Raymundo. Vai dar Zebra. Rio de Janeiro: Edição do Autor, [2011]



8 comentários:

Herman disse...

Parabéns pela crônica, Derauê!!! Muito bom. É bom mesmo que todos saibam dessas histórias do Bonsucesso para ratificar a nossa tradição no futebol tupiniquim. Show de bola. E sucesso sempre nas suas colunas.

Dêrauê disse...

Obrigado, Herman! Vamos com tudo! Abraços!

Anônimo disse...

BOA CRÔNICA NOVATO DO CESSO!!!PODERIA SER MAS SIMPLIFICADA,MENOS(-) NÉLSON RODRIGUES MAS(+)JOÃO SALDANHA,SEJA BEM VINDO COM SEU CORAÇÃO ALVINEGRO-RUBROANIL.

Dêrauê disse...

Valeu, anônimo de 18h43! Tanto o Nelson quanto o João são ótimas referências! Mas o coração é só rubro-anil mesmo... :D Abraços!

Aqipossa Informativo disse...

Dêrauê, excelente texto. Parabéns.

O Fanáticos pelo Cesso foi citado no AQIPOSSA.

O Futebol é 99% feito de clubes chamados pequenos. Esse 1% que resta, é a chamada Elite do Futebol.

Elite que se mostra cada vez mais podre.

Viva o Bonsucesso Futebol Clube.

Sem os pequenos, mesmo os Grandes, já haveriam sucumbido.

Um abraço,

Mauro Axlace

George Joaquim Ferreira Machado disse...

Não será segunda, terceira, quarta, décima divisão; Federação de Futebol e o que for, que apagarão a história do Bonsucesso no cenário esportivo carioca. Este jogo foi válido pela Taça Guanabara, competição totalmente independente do campeonato carioca. A Taça Guanabara era realizada para indicar o Campeão para a disputa da Taça de Ouro. O Bonsucesso foi a equipe de menor investimento que mais participou desta competição. E mais: o Flamengo nunca venceu o Bonsucesso na antiga Taça Guanabara. Seja bem vindo Dêrauê! Abção.

Dêrauê disse...

Muito obrigado, Mauro e Prof. George! É de iniciativas sinceras como o A quem interessar possa, a Folha Rubro Anil e o Fanáticos que o verdadeiro futebol precisa pra ser resgatado da podridão. Parabéns! Abraços!!!

Lorismario disse...

Jamais me esqueci que o Bonsucesso teve um percentual elevado naquele título do Glorioso de 68. Ainda mais que meu conterraneo e companheiro de colégio, Gibira (Luis Carlos Vitalli) estava no Bonsucesso. Como jogava bola o Gibira. Loris